quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

MARIA DA CONCEIÇÃO TAVARES, NO DCM

Difícil não concordar com praticamente tudo o que ela diz



Maria da Conceição Tavares: “Na ditadura, havia protesto. Hoje, mal se ouve um sussurro no Brasil”

 

Maria da Conceição Tavares

Publicado no Insight Inteligência
POR MARIA DA CONCEIÇÃO TAVARES
Vivemos sob a penumbra da mais grave crise da história do Brasil, uma crise econômica, social e política. Enfrentamos um cenário que vai além da democracia interrompida. A meu ver, trata-se de uma democracia subtraída pela simbiose de interesses de uma classe política degradada e de uma elite egocêntrica, sem qualquer compromisso com um projeto de reconstrução nacional – o que, inclusive, praticamente aniquila qualquer possibilidade de pactação.
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Hoje, citar um político de envergadura com notória capacidade de pensar o país é um exercício exaustivo. O Congresso é tenebroso. A maioria está lá sabe-se bem com que fins. O elenco de governadores é igualmente terrível. Não há um que se sobressaia. E não vou nem citar o caso do Rio porque aí é covardia. O “novo” na política, ou o que tem a petulância de se apresentar como tal, é João Doria, na verdade um representante da velha extrema direita.
A ditadura, a qual devemos repudiar por outros motivos, não era tão ordinária nesse sentido. Não sofríamos com essa escassez de quadros que vemos hoje. O mesmo se aplica a nossos dirigentes empresariais, terra da qual não se vê brotar uma liderança. A velha burguesia nacional foi aniquilada. Eu nunca vi uma elite tão ruim quanto esta aqui. E no meio dessa barafunda ainda temos a Lava Jato, uma operação que começou com os melhores propósitos e se tornou uma ação autoritária, arbitrária, que atenta contra as justiças democráticas, para não citar o rastro de desemprego que deixou em importantes setores da economia.
É de infernizar a paciência que a Lava Jato tenha se tornado símbolo da moralização. Mas por quê? Porque nada está funcionando. Ela é uma resposta à inação política. Conseguiram transformar a democracia em uma esbórnia, em que ninguém é responsável por nada. Não há lei ou preceitos do estado de direito que estejam salvaguardados. O futuro foi criminalizado.
Não estou dizendo que o cenário internacional seja um oásis. O resto do mundo não está nenhuma maravilha, a começar pelos Estados Unidos. Convenhamos, não é qualquer país que é capaz de produzir um Trump. Eles capricharam. Na Europa como um todo, a situação também é desoladora. E a China, bem a China é sempre uma incógnita… Mas, voltando ao nosso quintal, o centro medíocre se ampliou de uma maneira bárbara no Brasil. Não há produção de pensamento contra a mediocridade, de lado algum, nem da direita, nem da esquerda. Faltam causas, bandeiras, propósitos, falta até mesmo um slogan que cole a sociedade. O mais impressionante é que não estamos falando de um processo longo, de uma ou duas décadas, mas, sim, de um quadro de rápida deterioração em um espaço razoavelmente curto de tempo. Estou no Brasil desde 1954 e jamais vi tamanho estado de letargia. Na ditadura, havia protesto. Hoje, mal se ouve um sussurro.
Por outro lado, também não se acham soluções pela economia, notadamente o setor produtivo. A indústria brasileira “africanizou”, como há muito já previra o saudoso Arthur Candal. Rendemo-nos à financeirização, sem qualquer resistência. A ideia do Estado indutor do desenvolvimento foi finalmente ferida de morte pela religião de que o Estado mínimo nos levará a um estado de graça da economia. Puro dogma. Estamos destruindo as últimas forças motrizes do crescimento econômico e de intervenção inclusiva e igualitária no social.
Essa minha indignação, por vezes misturada a um indesejável, mas inevitável estado de pessimismo, poderia ser atribuída a minha velhice. Mas não acho que seja não. Estou velha há muito tempo. Luto para não me deixar levar pelo ceticismo. Não é simples pelo que está diante de meus olhos.
Lamento, mas não me dobro; sofro, mas não me entrego. Jamais fugi ao bom combate e não seria agora que iria fazê-lo. Há saídas para esse quadro de entropia nacional e estou convicta de que elas passam pelas novas gerações. Como diria Sartre, não podemos acabar com as ilusões da juventude. Pelo contrário temos de estimulá-las, incuti-las. Por ilusão, em um sentido não literal, entenda-se a capacidade de mirar novos cenários, a profissão de fé de que é possível, sim, interferir no status quo vigente, o forte desejo de mudança, associado ao frescor, ao ímpeto e ao poder de mobilização necessário para que ela ocorra. Só consigo enxergar alguma possibilidade de cura desse estado de astenia e de reordenação das bases democráticas a partir de uma maciça convocação e ação dos jovens.
Por mais íngreme que seja a caminhada, não vislumbro saídas que não pela própria sociedade, notadamente pelos nossos jovens. Não os jovens de cabeça feita, pré-moldada, como se fossem blocos de concreto empilhados por mãos alheias. Esses mal chegaram e já estão a um passo da senectude. Estou me referindo a uma juventude sem vícios, sem amarras, de mente aberta, capaz de se indignar e construir um saudável contraponto a essa torrente de reacionarismo que se espraia pelo país. Há que se começar o trabalho de sensibilização já, mas sabendo que o tempo de mudança serão décadas, sabe-se lá quantas gerações.
Não consigo vislumbrar outra possibilidade para sairmos dessa geleia geral, dessa ausência de movimentos de qualquer lado, qualquer origem, seja de natureza política, econômica, religiosa, senão por uma convocatória aos jovens. Até porque, se não for a juventude, vai se falar para quem? Para a oligarquia que está no poder? Para a burguesia cosmopolita – que foi a sobrou – com sua conveniente e perversa indiferença? Para uma elite intelectual rarefeita e um tanto quanto aparvalhada?
Ao mesmo tempo, qualquer projeto de costura dos tecidos do país passa obrigatoriamente pela restauração do Estado. É urgente um processo de rearrumação do aparelho público, de preenchimentos das graves lacunas pensantes. Nossa própria história nos reserva episódios didáticos, exemplos a serem revisitados. Na década de 30, durante o primeiro governo de Getúlio Vargas, guardadas as devidas proporções, também vivíamos uma dura crise.
Não íamos a lugar algum. Ainda assim, surgiram medidas de grande impacto para a modernização o Estado, como, por exemplo, a criação do Dasp – Departamento Administrativo do Serviço Público, comandado por Luis Simões Lopes.
Na esteira do Dasp, cabe lembrar, vieram os concursos públicos para cargos no governo federal, o primeiro estatuto dos funcionários públicos do Brasil, a fiscalização do Orçamento. Foi um soco no estômago do clientelismo e do patrimonialismo. O Dasp imprimiu um novo modus operandi de organização administrativa, com a centralização das reformas em ministérios e departamentos e a modernização do aparato administrativo. Diminuiu também a influência dos poderes e interesses locais. Isso para não falar do surgimento, nas fileiras do Departamento, de uma elite especializada que combinou altíssimo valor e conhecimento técnico ao comprometimento com uma visão reformista da gestão da coisa pública.
Faço esse pequeno passeio no tempo para reforçar que nunca fizemos nada sem o Estado. Não somos uma democracia espontânea. O fato é que hoje o nosso Estado está muito arrebentado. Dessa forma, é muito difícil fazer uma política social mais ativa. Não é só falta de dinheiro. O mais grave é a falta de capital humano. O que se assiste hoje é um projeto satânico de desconstrução do Estado, vide Eletrobras, Petrobras, BNDES…
RESTAURAÇÃO
O Estado sempre foi a nobreza do capital intelectual, da qualidade técnica, da capacidade de formular políticas públicas transformadoras. O que se fez no Brasil é assustador, uma calamidade. É necessário um profundo plano de reorganização do Estado até para que se possa fazer políticas sociais mais agudas. Chegamos, a meu ver, a um ponto de bifurcação da história: ou temos um movimento reformista ou uma revolução. A primeira via me soa mais eficiente e menos traumática. Ainda assim, reconheço, precisaremos de doses cavalares do medicamento para enfrentamos tão grave enfermidade. Os sintomas são de barbárie. Parece um fim de século, embora estejamos no raiar de um. Em uma comparação ligeira, lembra o começo do século XX. Os fatos levaram às duas Guerras Mundiais. Aliás, a guerra, ainda que indesejável, é uma maneira de sair do impasse.
Por isso, repito: precisamos de uma ação restauradora. O que temos hoje no Brasil não é uma feridinha à toa que possa ser tratada com um pouco de mertiolate ou coberta com um esparadrapo. O Estado e a sociedade brasileira estão em uma mesa de cirurgia. O corte é profundo, órgãos vitais foram atingidos, o sangramento é dramático. Este rissorgimento não deverá vir das urnas. Não vejo a eleição como um evento potencialmente restaurador, capaz de virar a página, de ser um marco da reconstrução.
Com o neoliberalismo não vamos a lugar algum. Sobretudo porque, repito: historicamente o Brasil nunca deu saltos se não com impulsos do próprio Estado. Esses últimos dois anos têm sido pavorosos, do ponto de vista econômico, social e político. Todas as reformas propostas são reacionárias, da trabalhista à previdenciária. Vivemos um momento de “acerto de contas” com Getúlio, com uma sanha inquisidora de direitos sem precedentes.
Trata-se de um ajuste feito em cima dos desfavorecidos, da renda do trabalho, da contribuição previdenciária, da mão de obra.
O Brasil virou uma economia de rentistas, o que eu mais temia. É necessário fazer uma eutanásia no rentismo, a forma mais eficaz e perversa de concentração de riquezas.
RENDA MÍNIMA
Causa-me espanto que nenhum dos principais candidatos à Presidência esteja tratando de uma questão visceral como a renda mínima, proposta que sempre teve no ex-senador Eduardo Suplicy o seu mais ferrenho defensor e propagandista no Brasil. Suplicy foi ridicularizado, espezinhado por muitos, chamado de um político de uma nota só. Não era, mas, ainda que fosse, seria uma nota que daria um novo tom à mais trágica de nossas sinfonias nacionais: a miséria e desigualdade.
Mais uma vez, estamos na contramão do mundo, ao menos do mundo que se deve almejar. Se, no Brasil, a renda mínima é apedrejada por muitos, mais e mais países centrais adotam a medida. No Canadá, a província de Ontário deu a partida no ano passado a um projeto piloto de renda mínima para todos os cidadãos, empregados ou não. A Finlândia foi pelo mesmo caminho e começou a testar um programa também em 2017. Ao que se sabe, cerca de dois mil finlandeses passaram a receber algo em torno de 500 euros por mês. Na Holanda, cerca de 300 moradores da região de Utrecht passaram a receber de 900 euros a 1,3 mil euros por mês. O nome do programa holandês é sugestivo: Weten Wat Werkt (“Saber o que funciona”). Funcionaria para o Brasil, tenho certeza.
O modelo encontrou acolhida até nos Estados Unidos. Desde a década de 80, o Alasca paga a cada um de seus 700 mil habitantes um rendimento mínimo chamado Alaska Permanent Fund Dividend. Os recursos vêm de um fundo de investimento lastreado nos royalties do petróleo. É bom que se diga que dois dos fundamentalistas do liberalismo, os economistas F. A. Hayek e Milton Friedman, eram defensores da renda básica e até disputavam a primazia pela paternidade da ideia. Friedman dizia que a medida substituiria outras ações assistencialistas dispersas.
No Brasil, o debate sobre a renda básica prima pela sua circularidade. O Bolsa-Família foi uma proxy de uma construção que não avançou. Segundo o FMI, a distribuição de 4,6% do PIB reduziria a pobreza brasileira em espetaculares 11%.
Essa é uma ideia que precisa ser resgatada, uma bandeira à espera de uma mão. Entre os candidatos à presidência, só consigo enxergar o Lula como alguém identificado com a proposta. Se bem que a coisa está tão ruim que, mesmo que ele possa se candidatar e seja eleito, teria enorme dificuldade de emplacar projetos realmente transformadores. O PT não tem força o suficiente; os outros partidos de esquerda não reagem.
Lula sempre foi um grande conciliador. Mas um conciliador perde o seu maior poder quando não há conflitos. E uma das raízes da nossa pasmaceira, desta letargia, é justamente a ausência de conflitos, de contrapontos. Não tem nada para conciliar. Mais do que conflitiva, a sociedade está anestesiada, quase em coma induzido. O que faz um pacificador quando não há o que pacificar?

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

PODER POLÍTICO DOS SUPER RICOS


Primeira parte: Identificação do centro de gravidade do neoliberalismo e de seu braço político, o neoconservadorismo.



UM ESPECTRO DOMINA O MUNDO

Existe um partido que manda efetivamente no Brasil e no Mundo. Este partido é um espectro, que se mantém nas sombras e só é percebido como tal através das ações que projeta através de outras instituições e dos efeitos das políticas que impulsiona.

Esse partido formou-se, e cresce, para impor o controle total das riquezas e potencialidades do mundo em favor da minoria dos bilionários globais. Os donos do mundo – esses bilionários – vêm aumentando a sua parte na riqueza e nas rendas globais graças às ações do tal partido.

Ele precisa ser invisível como organização. Não que seja governado por um comitê que se reúne secretamente em algum bunker.  Esse partido atua através de organizações econômicas e de corpos burocráticos e militares.

Chamaremos o partido dos bilionários de partido neoliberal, sigla PNL, a partir do princípio que o unifica, que é a ideologia neoliberal. Ao mesmo tempo que trabalha para enfraquecer os estados nacionais, o PNL tem as características de uma organização totalitária.

A ideologia do PNL nunca foi proposta claramente como programa de governo, em âmbito nacional, regional ou da Organização das Nações Unidas. Nunca houve debates verdadeiros em torno do corpo da ideologia neoliberal e o pragmatismo keynesiano que vinha sendo praticado anteriormente em todo o mundo. Vem sendo imposta através do domínio – estabelecido gradualmente e sem qualquer alarde - nas mídias mundiais e nas universidades. Legitima-se através da pseudociência econômica, que foi montada a partir da leitura de alguns princípios inicialmente formulados por Adam Smith, passou pelos liberais clássicos do século 19 e do trabalho dos novos liberais a partir do fim da Segunda Guerra Mundial.

Objetivos do PNL

Não se propõe tomar os governos de forma explícita. Em vez disso, trata de destruir o poder do Estado em todas as suas instâncias que possam ser aplicadas no bem estar social e na construção de uma economia nacional e funcional para a maior parte da população. Suas ações nesse sentido incluem:
Manter e acelerar o processo de concentração de renda, riqueza e poder para a minoria dos super ricos, basicamente nos EUA e em seus aliados.

  • Estender sua rede e fortalecer o poder dos super ricos.
  • As riquezas e potencialidades em qualquer parte do mundo que não possam ser submetidas ao controle da minoria dominante devem ser destruídas.
  • Os Estados Unidos devem continuar a exercer a “dominância global”, e o processo de declínio dessa dominância que ocorre neste começo do século 21 deve ser revertido.
  • A rede de influência, cujo poder é esmagador frente às redes de defesas de trabalhadores e dos pobres em geral – deve ser ampliada, em termos ideológicos e religiosos.
  • Manter a invisibilidade de seu corpo e estrutura.
  • Manter uma rede de paraísos fiscais que viabilizam a sonegação que destrói os sistemas fiscais dos estados nacionais que ousem direcionar os recursos advindos de impostos para qualquer finalidade que não expanda os fluxos de rendas dos donos do mundo.


Estrutura do partido neoliberal

O PNL é mantido invisível graças ao indispensável apoio da grande mídia internacional e nacional. Mais precisamente, essa grande mídia: redes de rádio e televisão, grandes jornais e revistas impressos e online, é parte integrante do partido, e pode ser considerada a sua primeira instância de poder.

A produção e a distribuição do discurso neoliberal são complementadas pela predominância esmagadora das narrativas distorcidas em favor dos objetivos do PNL, em que os acontecimentos favoráveis a seus objetivos ganham destaque, enquanto tudo o que possa desafiar o discurso global do PNL são ignoradas.

 A linguagem é fundamental no ativismo do PNL. Palavras são escolhidas de modo a favorecer o discurso básico neoliberal, assumindo as suas receitas como se fossem naturais, sem alternativas (o discurso TINA) e com base científica.

Os operadores e a massa de apoio do PNL vêm de uma fração que é majoritária das classes médias, que se portam de maneira defensiva em relação aos privilégios que ocupam na escala social. A sua adesão decorre em parte do papel tradicional dos membros dessa classe de intermediária entre o poder dos setores dominantes e os trabalhadores de média e baixa qualificação. Essa posição leva seus membros a tenderem a identificarem-se com os interesses do capital em sua fase atual, contra, portanto, a melhoria relativa da situação econômica e social dos trabalhadores e das populações menos favorecidas.

É esta fração que fornece as massas que vão se manifestar nas ruas e multiplicar matérias na internet.  São manipuladas pela mídia e por ativistas e robôs da internet.  Quadros da burocracia estatal responsáveis pela repressão e pela justiça - membros da polícia, procuradores, juízes, aderem ao discurso do PNL veiculado pela academia e principalmente pelas mídias, e recebem tratamento privilegiado inclusive em termos salariais, que as colocam mais próximas aos verdadeiros donos do poder.

O neoliberalismo em si começou a formar corpo a partir do esgotamento do ciclo de crescimento que afetou o Ocidente começando nos anos 1970. Tornou-se política de governo em 1973 no Chile com a ditadura militar, e entre 1979 e 1980 nos EUA e no Reino Unido.

A ideia da reativação do liberalismo econômico clássico iniciou-se logo depois da 2ª Guerra Mundial, com o austríaco Hayek e depois o americano Friedman. Antes e depois da instalação dos governos Thatcher e Reagan, em 1979 e 1981, que passaram a aplicar as diretivas de desmonte do estado de bem estar social e ataque aos sindicatos com o fim de reduzir os salários dos trabalhadores.

A invisibilidade como tática e estratégia do partido neoliberal

Quando os governos britânico e estadunidense iniciaram em seus países as políticas neoliberais, o campo já vinha sendo preparado nas universidades americanas e britânicas, por think tanks montados especificamente, mas de forma gradual, pelo grande capital dos EUA e de seus governos conservadores.

 O ensino de economia nas universidades, que tinha o liberalismo à margem e baseava-se nas ideias de Keynes, ao fim de algumas décadas passou a adotar as premissas neoliberais, que hoje dominam em todo o mundo fora China, Rússia e alguns países menores como Irã, Venezuela, Cuba, Coreia do Note, Turquia. Estes todos sob ataques dos Estados Unidos e seus aliados.  

Partidos conservadores após o fim da segunda guerra e antes da década de 1980 aceitavam, ou mais ou menos conviveram com o Estado do Bem Estar Social, eventualmente com nuances ideológicas à direita ou à esquerda, embora sem afetar sua essência. Quando Thatcher e Reagan mudaram radicalmente essa política em favor do capital e contra o poder dos trabalhadores, os partidos de centro-esquerda também se deslocaram, tentando ficar no meio do caminho.

 Sem se assumir como grupo à parte já era o PNL atuando. Tratando de fazer passar sua política de concentração de renda e de riqueza como produto de um consenso geral. É a época do TINA (there is no alternative, expressão atribuída a Thatcher), do Consenso de Washington de 1989.

O famoso Consenso foi aplicado pelo FMI e pelo Banco Mundial, dominados pelo governo dos Estados Unidos, que passaram a usar as crises financeiras dos países pobres para impor políticas de austeridade e privatização. Nesse período a privatização da Indústria britânica de energia começou a ser ensinada como modelo a ser seguido no Brasil, a gerências empresas brasileiras estaduais de energia, sob os governos do PMDB e do PSDB.

O PNL esteve presente em todas as negociações de tratados de “livre comércio” como o Nafta, entre EUA, Canadá e México. O Nafta foi ativado em 1994, e cláusulas do tratado permitem que corporações transnacionais possam exigir indenizações de governos nacionais ou locais que através de legislação ou da ação de órgãos executivos venham a limitar o montante de seus lucros.

Essas categorias de cláusulas vêm sendo negociadas secretamente pelos grupos de trabalho formados também por mecanismos desconhecidos das populações dos países afetados, no caso do tratado do Pacífico e do Atlântico, além do entre Mercosul e União Europeia. A mídia internacional cuida de ajudar a ocultar esses fatos, omitindo-os ou mostrando-os sem o destaque que seria devido pela sua importância.

Outra forma básica de imposição de invisibilidade têm sido as campanhas de combate à corrupção pela imprensa e mídia. Invariavelmente esse combate é feito exclusivamente a políticos e partidos que o PNL escolheu para alijar do poder e eventualmente destruir. Existe corrupção, mas a que não é atribuível à esquerda é ocultada pela mídia. Essas campanhas são realizadas também e principalmente para ocultar os grandes negócios que se fazem com as  privatizações e desnacionalizações de empresas estratégicas e de serviços públicos.

Raízes e cúpulas mais notórias do partido neoliberal 

  • Consenso de Washington
  • Fundo Monetário Internacional
  • Estados Unidos da América
  • Fórum Mundial de Davos
  • Ideologia Neoliberal
  • Bancos Centrais em Geral
  • Bancos e Outras Instituições Financeiras de Grande Porte
  • Paraísos Fiscais, entre os quais os mais importantes são Os Estados Unidos, a Suíça e o Reino Unido.
  • Universidades
  • Think Tanks Conservadores 

AUXILIO MORADIA

Do Gregorio Duvivier, veja aqui. Faz quase um ano, mas é muito atual.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

CONVERGÊNCIA NA PERCEPÇÃO


Este senhor quase foi candidato lá nos Estados Unidos. Tem muito apoio, principalmente entre os jovens. Obrigado Igor Fuser, pela indicação em seu Facebook. Claro, mesmo sem uma ditadura judiciária por lá (só algumas criminalizações de movimentos sociais), faltam instrumentos para esse enfrentamento. Vida que segue.

Bernie Sanders: é hora de nova rebeldia global

berniecampaigncover.nbcnews-ux-1080-600Às vésperas do Fórum de Davos, ex-candidato rebelde à presidência dos EUA propõe um movimento articulado para enfrentar, em todo o mundo, os poderosos, os bilionários e a desigualdade estrutural
Por Bernie Sanders | Tradução: Mauro Lopes
Eis onde estamos como planeta em 2018: depois de todas as guerras, revoluções e grandes encontros  internacionais nos últimos 100 anos, vivemos em um mundo onde um pequeno punhado de indivíduos incrivelmente ricos exercem níveis desproporcionais de controle sobre a vida econômica e política da comunidade global.
Difícil de compreender, o fato é que as seis pessoas mais ricas da Terra agora possuem mais riqueza do que a metade mais empobrecidada população mundial — 3,7 bilhões de pessoas. Além disso, o top 1% tem agora mais dinheiro do que os 99% de baixo. Enquanto os bilionários exibem sua opulência, quase uma em cada sete pessoas luta para sobreviver com menos de US$ 1,25 [algo como R$ 4] por dia e – horrivelmente – cerca de 29 mil crianças morrem diariamente de causas totalmente evitáveis, como diarreia, malária e pneumonia.
Ao mesmo tempo, em todo o mundo, elites corruptas, oligarcas e monarquias anacrônicas gastam bilhões nas mais absurdas extravagâncias. O Sultão do Brunei possui cerca de 500 Rolls-Royces e vive em um dos maiores palácios do mundo, um prédio com 1.788 quartos, avaliado em US$ 350 milhões. No Oriente Médio, que possui cinco dos 10 monarcas mais ricos do mundo, a jovem realeza circula pelo jet set ao redor do mundo, enquanto a região sofre a maior taxa de desemprego entre os jovens no mundo e pelo menos 29 milhões de crianças vivem na pobreza, sem acesso a habitação digna, água potável ou alimentos nutritivos. Além disso, enquanto centenas de milhões de pessoas vivem em condições de vida indignas, os comerciantes de armas do mundo enriquecem cada vez mais, com os gastos governamentais de trilhões de dólares em armas.
Nos Estados Unidos, Jeff Bezos — fundador da Amazon, e atualmente a pessoa mais rica do mundo — tem um patrimônio líquido de mais de US$ 100 bilhões. Ele possui pelo menos quatro mansões que, em conjunto, valem várias dezenas de milhões de dólares. Como se isso não bastasse, está gastando US$ 42 milhões na construção de um relógio dentro de uma montanha no Texas, que supostamente funcionará por 10.000 anos. Mas, nos armazéns e escritórios da Amazon em todo o país, seus funcionários usualmente trabalham em jornadas longas e extenuantes e ganham salários tão baixos que precisam crucialmente do Medicaid, de cupons de alimentos e subsídios públicos para habitação, pagos pelos contribuintes dos EUA.
TEXTO-MEIO
Não só isso: neste momento de riqueza concentrada e desigualdade de renda, pessoas em todo o mundo estão perdendo a fé na democracia. Eles percebem cada vez mais que a economia global foi manipuladapara favorecer os que estão no topo à custa de todos os demais — e estão revoltados.
Milhões de pessoas estão trabalhando mais horas por salários mais baixos do que há 40 anos, tanto nos Estados Unidos quanto em muitos outros países. Elas olham à frente e sentem-se indefesas diante de poucos poderosos que compram eleições e uma elite política e econômica que se torna mais rica, enquanto futuro de seus próprios filhos torna-se cada dia mais incerto.
Em meio a toda essa disparidade econômica, o mundo está testemunhando um aumento alarmante do autoritarismo e do extremismo de direita — que alimenta, explora e amplifica os ressentimentos dos que ficaram para trás e inflamam o ódio étnico e racial.
Agora, mais do que nunca, aqueles que acreditamos na democracia e em governos progressistas devemos mobilizar as pessoas de baixa renda e trabalhadoras em todo o mundo para uma agenda que atenda suas necessidades. Em vez de ódio e divisão, devemos oferecer uma mensagem de esperança e solidariedade. Devemos desenvolver um movimento internacional que rejeite a ganância e a ideologia da classe bilionária e conduza-nos a um mundo de justiça econômica, social e ambiental. Isso será uma luta fácil? Certamente não. Mas é uma luta que não podemos evitar. Os riscos ao futuro são altos demais.
Como o Papa Francisco observou corretamente em um discurso no Vaticano em 2013: “Criamos novos ídolos; a adoração do antigo bezerro de ouro encontrou uma nova e impiedosa imagem no fetichismo do dinheiro e na ditadura da economia sem rosto nem propósito verdadeiramente humanos.” Ele continuou: “Hoje, tudo está sob as leis da competição e da sobrevivência dos mais aptos enquanto os poderosos se alimentam dos sem poder. Como consequência, milhões de pessoas encontram-se excluídas e marginalizadas: sem trabalho, sem possibilidades, sem meios de escapar”.
Um novo movimento progressista internacional deve comprometer-se a enfrentar a desigualdade estrutural tanto entre as nações como em seu interior. Tal movimento deve superar o “culto do dinheiro” e a “sobrevivência dos mais aptos”, como advertiu o Papa. Deve apoiar políticas nacionais e internacionais destinadas a aumentar o nível de vida das pessoas pobres e da classe trabalhadora — desde o pleno emprego e salário digno até o ensino superior e saúde universais e acordos de comércio justo. Além disso, devemos controlar o poder corporativo e interromper a destruição ambiental do nosso planeta que tem resultado nas mudanças climáticas.
Este é apenas um exemplo do que precisamos fazer: apenas alguns anos atrás, a Rede de Justiça Fiscal (Tax Justice Network) estimou que as pessoas mais ricas e as maiores corporações em todo o mundo esconderam entre US$ 21 trilhões e US$ 32 trilhões em paraísos fiscais, para evitar o pagamento de sua justa contribuição em impostos. Se trabalharmos juntos para eliminar o abuso tributário offshore, a nova receita que será gerada poderá pôr fim à fome global, criar centenas de milhões de novos empregos e reduzir substancialmente a concentração de renda e a desigualdade. Tais recursos poderão ser usados para promover de forma acelerada uma agricultura sustentável e para acelerar a transição de nosso sistema de energia dos combustíveis fósseis e para as fontes de energia renováveis.
Rejeitar a ganância de Wall Street, o poder das gigantescas corporações multinacionais e a influência da classe dos bilionários globais não é apenas a coisa certa a fazer — é um imperativo geopolítico estratégico. Pesquisa realizada pelo Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas mostrou que a percepção dos cidadãos sobre a desigualdade, a corrupção e a exclusão estão entre os indicadores mais consistentes para definir se as comunidades apoiarão o extremismo de direita e os grupos violentos. Quando as pessoas sentem que as cartas estão  empilhadas na mesa contra si e não veem caminho para o recurso legítimo, tornam-se mais propensas a recorrer a soluções prejudiciais a elas próprias e que apenas exacerbam o problema.
Este é um momento crucial na história do mundo. Com a explosão da tecnologia avançada e os novos paradigmas que ela permitiu, agora temos a capacidade de aumentar substancialmente a riqueza global de forma justa. Os meios estão à disposição para eliminar a pobreza, aumentar a expectativa de vida e criar um sistema de energia global barato e não poluente.
Isto é o que podemos fazer se tivermos a coragem de nos unir e confrontar os poderosos que querem cada vez mais para si mesmos. Isto é o que devemos fazer pelo bem de nossos filhos, netos e o futuro do nosso planeta.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

VEJA A OPINIÃO DE BRIZOLA SOBRE TUDO ISSO

Peguei no Tijolaço. Afinal de contas, precisamos do apoio de todos, inclusive de alguém que sofreu muitas derrotas e teve muitas vitórias com o povo brasileiro.
Aproveito para enviar saudação aos fãs deste blog da Polônia (69 visualizações até agora, o maior número indicado nas estatísticas do Google!)



Brizola, sobre a condenação de Lula. Por Marceu Vieira

brizlul
Meu bom amigo Marceu Vieira, hoje exilado em terras paulistanas, por muitas vezes entrevistou Brizola e pegou-lhe o jeito personalíssimo, arrisca-se a fazer o que eu jamais faço com Brizola – embora o  tenha feito com Darcy Ribeiro – porque fui seu porta-voz e não exerceria esta confiança sem o poder: escrever o que ele diria do que se passa hoje.
Marceu pode fazê-lo e, em seu blog, publica a imaginária entrevista, com as pitadas de humor de não lembrar, nunca, o seu nome.

Brizola: ‘Julgamento de Lula foi um teatro’

Marceu Vieira, em seu blog
Em nova alucinação, o cronista digital voltou a entrevistar sua lembrança de Leonel Brizola – desta vez, no dia da condenação de Lula em segunda instância.
Governador, daí onde está agora, o senhor acompanhou o julgamento do Lula?
Sim, Romeu. Eu, de cá onde estou, a tudo assisto e tudo ouço. Vi tudo isso com grande apreensão e tristeza. Francamente, sinto muita tristeza. Este velho coração, já parado, ficou mais engelhado, tu podes acreditar. Vi tudo isso, principalmente, com a preocupação de quem não pode mais estar aí para manifestar a sua indignação. Por isso, mais uma vez, pedi permissão aos líderes do universo, que um dia tu, que és novilho precoce, também saberás quem são, para acompanhar mais esse calvário, que não é só do Lula, creias, mas de todo o povo brasileiro. Pedi permissão também para dizer através de ti, novilho precoce, como tantos que aí vejo, algumas palavras.
Novilho precoce?
Tu me perdoes. Não te ofendas, Orfeu. Novilho precoce é aquele abatido quando ainda não completou 30 meses. É como vejo os sonhos da tua geração. A tua geração foi abatida em tantos sonhos desde que esses facínoras, não é verdade?, se aferraram ao poder no fim da ditadura. Deu-se, então, a ditadura econômica, comandada por esses filhotes da ditadura militar. Houve a vitória do povo com Lula, depois com a dona Dilma, mas, no fundo, tisc, no fundo, eles, os facínoras, estiveram sempre ali, de prontidão, o tempo todo, comandando os carreiros com suas varas finas, a guiar a boiada rumo ao abatedouro da ditadura econômica. Francamente, acredito que o PT, num dado momento, achou que a fatura já estava ganha e deu rédeas a esta gente. Eu sinto pena de ti e de tantos novilhos precoces abatidos em seus sonhos. E sinto, sobretudo, creias, uma profunda dó do Brasil.
O julgamento do Lula foi injusto?
Só a maldição do Coisa Ruim poderia fazer alguém, em sã consciência, acreditar que o que se passou com o Lula transcorreu de uma maneira limpa e justa. Francamente! Lula, vá lá, cometeu por aí os seus equívocos. Pecados veniais. Francamente, Lula costeou o alambrado algumas vezes, e até ultrapassou a cerca em ocasiões importantes, fazendo festa de cusco interessado num naco de carne, ou mesmo cegando os olhos para os donos do poder econômico e político, que ameaçavam a sua governabilidade. Mas, a rigor, não vejo em nada um crime que justifique esse calvário imposto pelo juiz Louro ao ex-presidente.
O senhor fala do juiz Moro?
Alfeu, perdoes este velho já morto, que vem de longe, e ainda não se habituou ao nome do magistrado. Mas, francamente, com todo o respeito aos louros, ele, o juiz, está mais para Louro, a ave, não é verdade?, aquele que reproduz o que o dono repete e não pensa nem sabe o que diz. Só reproduz o que lhe ensinam na repetição.
O juiz Moro estaria a serviço de que dono?
Francamente, a rigor, não vejo de outra forma. Ele, o Mouro, não parece ter a virtude da isenção, que se presume que os magistrados devam ter. Está claro, nas suas decisões, a quem ele serve. Veja como ele se comporta com os do lado de lá! Chega a ser perigoso para o Judiciário ter o destino do Brasil nas mãos desse jovem juiz, cujo objetivo, a mim me parece, é apenas o de esmagar Lula e suas possibilidade de retorno à Presidência. E a quem interessa que Lula esteja fora da disputa?! Não sei quais são as convicções políticas do meritíssimo, o que ele supõe como país ideal para os seus filhos. Mas se tem tem rabo de jacaré, dente de jacaré, couro de jacaré, só pode ser jacaré! Vejo essa artilharia contra o Lula diferente do bombardeio daquele cantor, por exemplo, o Tigrão, francamente, que ataca, ataca, ataca com sua língua afiada, e nada propõe para pôr no lugar do que deseja desconstruir. Essa gente a que o juiz Louro serve sabe muito bem o que quer perpetuar.
Quem é esse Tigrão, governador?
O cantor… Eu não saberia classificar. Funkeiro talvez não seja. Acho que é do iê-iê-iê, uma espécie de astro do iê-iê-iê brasileiro, que anda apartado da grande mídia. Ele tem uma música que admiro, que diz: “A vida passa na TV.” Nem sempre a vida real passa na TV. Mas este verso desse Tigrão, na verdade, diz um pouco do meu sentimento.
Governador, não seria Lobão?
Sim, é esse. Peço perdão a ele pelo meu engano, Aristeu.
Marceu, governador.
Ah, quanto a ti, já me desculpei muitas vezes. Sempre troquei teu nome. Tu me desculpes, Marcel. Mas deixe-me concluir. O juiz não é como esse Tigrão, que expõe seu desejo de demolir tudo isso que aí está sem oferecer uma alternativa capaz de estancar o sangue do povo brasileiro. Tu sabes que eu também jamais morri de amores pelo Lula. Há questões fundamentais nas quais divergimos ao longo de toda a minha passagem por este plano. Mas não vejo no Brasil alternativa melhor neste momento do que o Lula. O povão humilde, as nossas crianças de pés descalços e canelas ruças, as mulheres oprimidas, os nossos irmãos negros, quem melhor para olhar por eles? Penso que esse seja o Lula. Por isso, os interésses econômicos o temem tanto, porque querem o leite da vaca só para si! Quem melhor para estancar as perdas internacionais que mantêm tudo isso que aí está?! No meu entendimento, honestamente, o Lula.
Governador, o presidente Temer disse que…
Um momento, Argeu! Tu me desculpes interromper. Não quero falar desse Temer. Esse Temer, a rigor, não é nada! É um rito de passagem, um bonecão do posto, não é verdade?, tu me entendes, um bonecão do posto que está ali, tisc…, está ali só para cumprir a tarefa de quem de fato comanda as ações, que é o poder econômico, que é essa elite apodrecida, que, daqui onde estou eu pressinto, um dia vai morrer de velha sem que ninguém vá ao seu funeral! A rigor, é o que vai acontecer! A elite brasileira vai morrer de velha, podre, sem que ninguém vá ao seu funeral!
Voltando ao julgamento, o senhor acreditava na possibilidade de absolvição do Lula?
Veja, Pirineu. Como se diz nos pampas, o cenário sempre esteve mais feio do que o diabo chupando limão, não é verdade? Tudo se deu como o grande poder desejava que as coisas sucedessem. Mas, honestamente, mantenho a minha fé no bom senso dos juízes que ainda julgarão novos recursos do ex-presidente. A mim, sempre pareceu improvável o cenário de 3 a 0 a favor do Lula. Mas acreditava numa análise mais equilibrada nessa segunda instância do que os 3 a 0 contra ele. Eu me recolho com grande tristeza depois de assistir ao que assisti em Porto Alegre.
O aumento da pena de Lula, na sua opinião, sinaliza que…
Permita-me concluir. O tempo é o maior de todos os juízes. O tempo também julgará esses desembargadores, como também julgará o juiz Louro. Os regentes dessa sustentação ao juiz, a meu ver, são mais assanhados do que lambari de sanga. São mais ásperos do que língua de gato. Mas, a rigor, esse julgamento do Lula não passa de uma bazófia para o juiz Mouro. Na verdade, foi um teatro apenas! Um teatro! A rigor, foi um teatro, com final já previsto. Lula, para eles, já estava esgualepado que nem cincha de bagual. Mas lhe asseguro, Doalcei, Lula é forte e resistirá. Disso, creias, eu não tenho dúvidas. Confio que algo de positivo ainda vai de acontecer.
No Judiciário?
Se não for pela ação do Judiciário, será pelo poder das ruas.
O senhor acompanhou o comício do Lula e da Dilma em Porto Alegre na véspera do julgamento?
Sim. Confesso que assisti a tudo com muita alegria e saudade daquele cenário. Eu mesmo já estive ali, diante de multidão até maior, modéstia à parte, proferindo as minhas crenças e as minhas verdades. No meu último quarto de hora neste ambiente terreno de vocês, era do que mais sentia falta, de falar co franqueza para o nosso povão.
O senhor ainda acredita que Lula consiga se candidatar?
Veja, Ateneu. Quando eu estava no exílio, e aqui ainda mal se falava em abertura política, ninguém acreditava que o Leonel Brizola pudesse voltar e se eleger governador. Sobretudo de um estado como o Rio de Janeiro, onde funcionava o intestino da ditadura, não é verdade? No Rio de Janeiro, estava o intestino grosso da ditadura! Mas este velho combatente, como tu sabes, desembarcou na Guanabara e derrotou até mesmo a fraude! E tiveram de nos engolir! De modo que não duvido das possibilidades do Lula. Uma nuvem escura se precipitou sobre o campo popular, que é o nosso, que é o do Lula, mas a tempestade, tu creias, tisc…, não dura para sempre. Nem o dilúvio de Noé durou para sempre. De modo que mantenho a minha crença.