sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

O GOLPE NO BRASIL E A EPIDEMIA DE ANALGÉSICOS OPIÁCEOS NOS ESTADOS UNIDOS

Tem, sim, tem muito mais a ver do que pode parecer num primeiro instante.

É assim. Há alguns anos atrás, uma série de televisão americana, House muito famosa, mostrou um médico muito competente e um tanto louco, chefe de diagnósticos em um hospital. House é o sobrenome dele. 

Pois aparece que ele é viciado em oxicodona, e ficou assim como resultado do tratamento dele, de alguma coisa na perna que o faz andar com uma bengala. E ele consome de maneira abusiva, ou seja em uma quantidade que ele não consegue adquirir de maneira legal. Isto na época da série (2004 a 2012 segundo a WikiPédia).

Esses analgésicos são produzidos e vendidos normalmente, lá nos EUA. Mas a venda é regulada, porque eles viciam. Oxicodona e todo um grupo de outros analgésicos são produzidos com alguns dos componentes do ópio, aquele das guerras no Paquistão, Afeganistão, Laos, Vietnam, Birmânia e outros, e do qual é extraída a heroína, campeã entre viciados de drogas ilegais.

Pulando rápido para o presente, nos EUA a família de analgésicos opiáceos é gravíssima, mata mais que qualquer outra doença. As grandes farmacêuticas, que produzem e impulsionam as vendas dos remédios através das relações de compadrio com a classe médica (lá como cá...), igualzinho às empresas de tabaco, tratam de todas as formas de ocultar os problemas. Inclusive escondendo os problemas e fraudando pesquisas médicas sobre o assunto. Igualzinho fizeram as tabaqueiras nos anos 1950 e 1960.

E a ligação que eu sugeri no título? 

Está no avanço das grandes corporações sobre o estado, neste presente caso para enfraquecer o controle do Estado sobre drogas, usando seu poder econômico para investir na mídia, na justiça, nos legisladores, nos órgãos reguladores, usando falsidades... Como é mesmo que o golpe vem avançando no Brasil (e outros países da América Latina, para ficarmos só aqui)? Só falta uma campanha de ódio político e racista para completar a semelhança. Mas se lembrarmos a ascensão do Trumpismo, vemos o modo de operar da minoria dos 1 ou 0,1% dos super ricos em seu avanço, tanto lá como cá.

Veja abaixo a matéria publicada no Outras Palavras sobre a epidemia e seus beneficiários.


Opiáceos, a epidemia mortal que rende bilhões







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EUA afundam numa gigantesca onda de overdoses. Mas ninguém controla as drogas que engordam a indústria farmacêutica e financiam o sistema político
Por Luis Miguel García, no La Marea Tradução: Ricardo Cavalcanti-Schiel
Há alguns anos que os Estados Unidos padecem de uma epidemia de mortes produzidas por analgésicos opiáceos vendidos com receita médica, como o Vicodin, o Percocet e o OxyContin. A venda desse tipo de analgésico quadruplicou desde 1999, uma vez que passaram a ser indiscriminadamente prescritos. E isso multiplicou por três as mortes por overdose. Com efeito, de acordo com os dados oficiais, em 2016 registraram-se 52 mil mortes por overdose, entre opiáceos legais e ilegais, incluindo sua alternativa mais barata: a heroína ‒ além das outras mais potentes que ela, como o fentanil e o carfentanil, este último 10 mil vezes mais potente que a morfina.
A overdose já é a maior causa de mortes entre menores de 50 anos, e se estima que 2,2 milhões de norte-americanos sejam dependentes de opiáceos, dos quais, apenas 20% chegam a receber tratamento. Estima-se também que, nessa epidemia, já teriam morrido 200 mil pessoas, uma cifra consideravelmente elevada se a comparamos, por exemplo, com as 36 mil mortes na Guerra de Coreia (1950-1953) ou as 58.000 na Guerra do Vietnã (1955-1975). Veja o quadro:
Fonte: Centers for Disease Control and Prevention (EUA)
Fonte: Centers for Disease Control and Prevention (EUA)
Após a epidemia de heroína protagonizada pelos veteranos de guerra que voltavam do Vietnã, os opiáceos passaram a ter péssima fama, e ficaram reservados às doenças graves e aos pacientes terminais. No entanto, a partir dos anos 90 começaram a ser usados para tratar enfermidades mais leves, como a artrite e as dores de coluna, e essa tendência foi aumentando por conta das novas diretrizes médicas, das políticas dos planos de saúde privados e das campanhas de marketing, que acabaram fazendo com que agora sejam receitados para qualquer dor de cabeça, apesar do seu potencial para gerar dependência, o que, a princípio, já constituiria uma má prática médica. De acordo com um levantamento do National Safety Council, 71% dos médicos receitam opiáceos para tratar dor nas costas crônica e 55% para uma simples dor de dente.
Essa epidemia não surgiu do nada. Ela é fruto do investimento bilhonário das grandes indústrias farmacêuticas, que, com pleno conhecimento, promoveram a massiva prescrição de opiáceos e o desprezo pelos riscos implícitos no seu uso. Basta como exemplo citar o caso da Purdue Pharma, fabricante do OxyContin (que tem como base o opioide oxycodona), que em 2007 foi condenada a pagar mais de 600 milhões de dólares de multa, depois de provado que a empresa enganou pacientes, médicos e agências reguladoras sobre os riscos de dependência do medicamento; riscos conhecidos pelo fabricante antes mesmo da aprovação da sua venda, como ficou provado pelos emails internos da empresa. Além de duplicar o número de comerciais entre 1996 e 2002 e de aconselhar os médicos a aumentar a dose, ao invés de reduzir o tempo entre uma ingestão e outra, a empresa distribuiu cupons aos médicos para que seus pacientes recebessem amostras grátis de opiáceos para um tratamento de um mês, entre outras práticas de marketing agressivo.
Outras companhias que dominam esse mercado lucrativo são: Johnson & Johnson, Depomed, Insys Therapeutics e Mylan. Todas elas investiram milhões de dólares em ações de lobby no Congresso norte-americano. O resultado é que a população dos Estados Unidos, que representa 5% da população mundial, consome 75% dos medicamentos prescritos mundo e 80% dos opiáceos ‒ enquanto o Canadá e a Europa Ocidental somam outros 15%, e o resto do mundo fica com os 5% restante. Não por casualidade, os Estados Unidos são o país do mundo com o maior gasto em saúde, montando 17% do PIB, o dobro de qualquer país europeu, enquanto 12% da sua população em idade laboral sequer têm acesso à assistência médica.
TEXTO-MEIO
Frente aos abusos no uso e às overdoses, as companhias farmacêuticas encontraram soluções lucrativas. Assim, as compras de naloxona, o antídoto contra os opiáceos, foram estimuladas pelo governo Obama, que pretendia que ele estivesse acessível em prédios e espaços públicos, proporcionando créditos para a aquisição de grandes lotes. O resultado é que seu preço foi multiplicado até 17 vezes e os hospitais logo se viram desabastecidos.
Do mesmo modo, para fazer frente ao uso indevido (recreativo) de opiáceos, os fabricantes patentearam variantes dos medicamentos nas quais sua pulverização ‒ para posterior inalação ou injeção venosa ‒ torna-se mais difícil. Essas variantes, vendidas como “antiabuso”, por irritar as fossas nasais se pulverizadas e cheiradas, ou por vir combinadas com outras substâncias que atenuam os efeitos narcóticos, não chegaram a comprovar que podem diminuir o risco de overdose. No entanto, seu patenteamento as torna mais caras e renova o ciclo comercial, uma vez que os grupos de pressão buscam implementar novas regulações federais que obrigam a FDA (Food and Drug Administration ‒ que tem ¾ do seu orçamento financiado pela indústria farmacêutica) a substituir os atuais opiáceos por essas novas versões. No âmbito das legislações estaduais, em complemento, a tendência passa a ser a de obrigar os planos de saúde a oferecer as novas variantes de opiáceos. Assim, por exemplo, um mês de tratamento com Embeda (da Pfizer) custa cerca de 268 dólares, frente aos 38 dólares do que seria com morfina genérica. Buscando preços mais baratos na Internet, é possível conseguir essa mesma morfina por 27 dólares.
Outra vertente de lucro é a dos tratamentos contra a dependência de opiáceos. Medicamentos como a buprenorfina são produzidos pelos mesmos laboratórios, que tratam de produzir novas versões assim que as patentes das versões anteriores estejam para caducar.
Gasta-se muito dinheiro nos Estados Unidos com medicamento recém-patenteado. As novas versões “antiabuso” dos opiáceos são maciçamente prescritas para veteranos de guerra, já na terceira idade, que representam um risco muito baixo de que possam cheirar ou injetar substâncias desse tipo. Todo esse dinheiro talvez fosse melhor usado em campanhas de prevenção e de informação à comunidade médica, como também em centros de tratamento à dependência, uma vez que, até agora, nenhuma versão conseguiu reduzir a forma mais comum de abuso de opiáceos: ingerir uma dose maior que a indicada.
Por outro lado, uma vez que o ácido cítrico dissolve alcaloides como a diamorfina (ou heroína ‒ por sua vez uma acetilização da morfina) [N. do T.: operação que é a base de drogas como a krokodil, a droga que “devora carne humana”, por conta destruição do tecido muscular pelos compostos ácidos], é possível encontrar no Youtube ou em fóruns digitais instruções para converter os caros comprimidos “inquebráveis” em algo facilmente injetável, tornando inúteis suas pretensões “antiabuso”.
Outra frente aberta pela indústria farmacêutica é a dos supostos grupos de pacientes, como o obscuro Pain Care Forum, subvencionados por laboratórios, que pressionam os legisladores para não dificultar a prescrição de analgésicos opioides ou impor a informação médica sobre os riscos do seu uso. A propósito, apenas no lobby em favor dos opiáceos, a indústria farmacêutica nos Estados Unidos investiu 880 milhões de dólares no apoio a mais de 7.000 candidaturas políticas em todo o país. Isso pode ser comparado com os escassos 4 milhões de que dispõem os grupos que defendem limites à prescrição de opiáceos. Com uma enxurrada de dólares, a indústria farmacêutica, martela na opinião pública a ideia de que um limite à disponibilidade de opiáceos prejudicaria milhões de doentes crônicos. E assim conseguem que sejam aprovadas leis como as que favorecem os opiáceos e seu circo de patentes.
Para isso, em 2011 realizou-se uma maciça campanha de marketing apoiada sobre o mito de que 100 milhões de norte-americanos sofrem de dor crônica, precedida de outra, poucos anos antes, que afirmava que menos de 1% dos usuários de opiáceos tornam-se dependentes. Ambas as proposições são falsas. De acordo com um estudo de 1999 financiado pela farmacêutica Purdue, 13% dos pacientes que tomavam OxyContin para dores de cabeça se tornavam dependentes. Outro estudo, como o publicado no Journal of Pain por pesquisadores da Washington State University, reduzem a cifra dos 100 milhões de sofredores de dores crônicas para 39 milhões. Nas palavras de Andrew Kolodny, presidente da Associação de Médicos para a Prescrição Responsável de Opiáceos (PROP, organização que não aceita dinheiro proveniente de companhias farmacêuticas), a ideia de que um em cada três norte-americanos sofre de dor crônica é simplesmente ridícula. Se para sua próxima campanha, a indústria farmacêutica necessitar de dados verdadeiros, eles são facilmente encontráveis na Internet. Por exemplo: o de que 86% dos usuários de heroína eram antes usuários de medicamentos opiáceos. Eles passam dos comprimidos para a heroína pelo fato singelo de que esta última é muito mais barata que os cada vez mais caros medicamentos processados.
E, claro, não poderia faltar também o jogo perverso de vasos comunicantes: Desde o ano 2000, pelo menos 56 agentes da DEA (Drug Enforcement Administration) responsáveis pelo planejamento estratégico de repressão ao comércio de opiáceos foram recrutados pela indústria farmacêutica em troca de generosos salários.
De outra parte, a FDA (aquela que tem ¾ do seu orçamento financiado pela indústria farmacêutica) opôs-se à necessidade de abordar a prescrição de opiáceos nos cursos obrigatórios certificados para os médicos, bem como à necessidade de registros eletrônicos que possam identificar usuários que deles façam uso abusivo. Em lugar disso, ela apoia aulas opcionais para os médicos em formação e folhetos nas farmácias, que informem sobre os riscos dos opiáceos. Mais estranho ainda é que esse órgão regulador aprove tais medidas contra o parecer do seu próprio comitê independente de assessoria científica. Não surpreende, portanto, que 99% dos médicos prescrevam opiáceos durante tempo maior que o recomendado (72 horas) pelos CDC (Centros para o Controle e Prevenção de Doenças, dos Estados Unidos); que quase um quarto deles os prescrevam durante pelo menos um mês, tempo suficiente para produzir mudanças nas estruturas cerebrais; e que quase a metade deles acredite que as novas e mais caras versões “antiabuso” produzam menos dependência, o que não é absolutamente verdade.
Os profissionais médicos tampouco estão livres de culpa. Estudos demonstram que a maioria dos médicos foi ou convencida pela propaganda da indústria farmacêutica ou influenciada pelos luxuosos simpósios a que são convidados por ela. Os documentos internos da Purdue indicam, por exemplo, que os médicos que foram convidados para seus congressos em 1996 receitavam mais que o dobro de OxyContin que aqueles que não foram. Os médicos também sofrem a pressão da avaliação por parte dos seus pacientes, e essa avaliação depende de estes últimos terem recebido a receita que desejavam, e não aquela que lhes fosse mais apropriada. Alguns desses pacientes praticam o que se chegou a chamar de “doctor shopping”: ir de médico em médico (às vezes, até, em grupo e em vans alugadas) pedindo receitas de opiáceos. Para evitar essa prática, foi criado um sistema que designa um único médico e uma única farmácia ao mesmo paciente. Esse é basicamente o sistema usado tanto pelos planos de saúde como pelo programa de assistência médica para a população mais pobre (Medicaid), que com isso podem reduzir a fatura farmacêutica que são obrigados a pagar, já que eventuais abusos são mais facilmente detectáveis. Além disso, a legislação passou a determinar que a assistência médica à terceira idade (Medicare) se incorpore a esse sistema. No entanto, nenhuma lei impede ainda que 60% dos médicos recebam comissões dos laboratórios farmacêuticos.
Em suma, um mastodôntico sistema de saúde privado, que custa o dobro que qualquer sistema público europeu, foi corrompido, parte por parte, para criar um exército de dependentes aos opiáceos, para a glória maior dos acionistas de um punhado de indústrias farmacêuticas. Os chefões da droga no século XXI já não protagonizam mais as séries famosas da Netflix, ambientadas em países caribenhos, nem trocam tiros com a polícia. Eles se sentam nas confortáveis poltronas dos conselhos de administração das grandes multinacionais farmacêuticas, de onde ditam leis sob medida para os congressistas que fazem parte da sua folha de pagamento. 



quarta-feira, 27 de setembro de 2017

POR ENQUANTO, UM CAMINHO

Leia este artigo do Aldo Fornazieri, e, no fim, pegue o link para a entrevista mais recente do Lula.

O agravamento da crise e Lula como saída
Por Aldo Fornazieri


Duas pesquisas publicadas nos últimos dias confirmaram a tese que defendemos no artigo publicado na semana passada: a de que houve um efeito saturação com as denuncias e ataques a Lula. A pesquisa CNT mostra que Lula venceria as eleições de 2018 em todos os cenários. E a pesquisa Ipsos mostra que a rejeição de Lula cai e que aumenta a rejeição do juiz Moro, de Dória, Bolsonaro e vários outros políticos. A falta de materialidade de provas contra Lula reforça a ideia de que ele é alvo de um ataque persecutório por parte de Moro. Dória vem se evaporando no ar por diversos motivos. Já, Bolsonaro, começa a assustar os eleitores na medida em que, de sua boca, saem investidas de cavalaria.

A crise política e institucional, contudo, parece não ter chegado ao apogeu e a complexidade e incertezas que ela suscita tendem a aumentar. O fato é que o golpe desorganizou o funcionamento institucional e já não há governo, não há Congresso e não há Judiciário funcionando nos parâmetros da normalidade democrática e institucional. Nem o Judiciário e nem o Congresso mostram-se capazes de solucionar a crise. A questão central é essa: há um governo ilegítimo, sem nenhum apoio social, cujo presidente da República é chefe de uma organização criminosa, nas conclusões da Procuradoria Geral da República. O presidente e as instituições estão desmoralizados e sem legitimidade.

O povo brasileiro está posto de joelhos em face da incapacidade da oposição de produzir um movimento de massas para tirar o presidente. O presidente, por força da Constituição, é comandante-em-chefe das Forças Armadas. Não é normal que as Forças Armadas de um país, com os seus padrões de disciplina, hierarquia, ordem, sensos de honra e moralidade, sejam comandadas por um chefe que, ao mesmo tempo, é chefe de uma organização criminosa, conforme conclusão de investigações. É neste contexto que deve ser compreendido o pronunciamento de militares, agora da ativa.

O pronunciamento dos militares faz crescer o impasse da crise. Se, por um lado, é correto que eles não podem aceitar como comandante alguém que chefia uma organização criminosa, por outro, há um claro limite constitucional para a sua ação política. Eles não podem agir como poder interventor acima da Constituição. Mas ao mesmo tempo, o Judiciário e o Congresso mostram-se incapazes de solucionar a crise, ao menos parcialmente, com a remoção do presidente ilegítimo.

Ao impasse militar e ao impasse do Congresso e do Judiciário, soma-se um terceiro impasse: A investida de vários setores na sanha quase cruenta para impedir a candidatura de Lula à presidência. Esses setores são legionários do caos, estimuladores da desobediência civil, engendradores de rebeliões. Se o Brasil, a República, as instituições e o sistema político estão destroçados e carentes de legitimidade, como tirar do processo eleitoral o líder com maior legitimidade? E como tirá-lo a golpes arbitrários, sem provas cabais de ter cometido os delitos de que é acusado? Como tirar do jogo eleitoral justamente o líder que pode reconfigurar a legitimidade institucional? Na verdade, esses setores, estão armando um ciclone de grandes  proporções no horizonte da política brasileira.

A hora do confronto


A crise brasileira só poderá ter um início de solução pacífica se o processo eleitoral for marcado pela legalidade e legitimidade, o que implica permitir que Lula dispute as eleições. Se este é o requisito condicional de uma eleição democrática, as forças progressistas e de esquerda precisam se organizar e organizar linhas de defesa desde já para salvaguardar a democracia. Os líderes progressistas atuais terão seus nomes inscritos na ignominiosa histórica da covardia se agirem como agiram na derrubada de Dilma, na aceitação de fato de Temer e na falta de reação na votação da reforma trabalhista.

Alguns analistas, inclusive de esquerda, afirmam que Lula é passado, que faz parte do arranjo que emergiu da Constituição de 1988 e que este arranjo desmoronou porque expressava a conciliação e esta não tem mais lugar a partir do golpe. Nisso tudo, apenas a última afirmação é verdadeira. Na verdade, há uma enorme incompreensão na avaliação de que Lula é passado. Ocorre que o movimento positivo do país que nasceu com a nova Constituição e que teve nos governos Lula seu ponto mais alto, teve sua trajetória interrompida e o Brasil está passado por um grave retrocesso nos direitos, na cidadania, na democracia, na ciência e tecnologia, na soberania, na pluralidade, na convivência, na cultura etc..

Lula é o único líder, neste momento, capaz de interromper este retrocesso, pois as forças democráticas e progressistas estão desorganizadas e desorientadas. O país não vive nenhuma situação revolucionária. Pelo contrário, o momento é de resistência para impedir uma destruição maior. Este momento requer unidade das forças progressistas e capacidade de liderança e comando. O conteúdo que o movimento em defesa da candidatura Lula e de sua possível candidatura vierem a assumir dependerá do grau de unidade e de engajamento das esquerdas, dos democratas e progressistas nesses esforços. Trata-se de um conteúdo em disputa, que dependerá da força política o organizacional que os setores progressistas dispuserem para barganhar no programa  ser construído e nas políticas públicas que poderiam vir a ser implementadas. 

A fragmentação das forças progressistas as despotencializará, reduzindo o número de deputados, senadores e governadores eleitos. Dividir e fragmentar significa ser a esquerda que a direita quer. A unidade tem que ser com Lula ou sem Lula, se ele for impedido. Se o momento é de resistência e de recuperação terreno tomado pelo inimigo, trata-se de ser prudente, econômico nas expectativas e severo nas advertências, pois os riscos de novas derrotas são significativos. Lula terá que ter a  sabedoria e a humildade para conduzir essa unidade e o PT terá que deixar de lado o seu costumeiro exclusivismo, fazendo concessões justas ao seus aliados.

Mas tudo isto é possível? A resposta a esta pergunta é mais de dúvida do que de certeza. A esquerda é madrasta de sua própria desgraça. Lutar para afastar Temer, mobilizar para garantir a candidatura Lula e construir a unidade democrática e progressista são as três principais tarefas da conjuntura. Mas o que se vê nos partidos, movimentos e organizações sociais e de esquerda é mais confusão, dispersão, falta de unidade e de rumos.

A fragmentação que está se armando caso Lula não possa concorrer poderá produzir uma nova derrota devastadora: nenhum candidato progressista no segundo turno das eleições presidenciais. Este seria o preço a ser pago pela ausência de responsabilidade histórica e pela ambição inconsequente dos partidos e de potenciais candidatos do campo progressista.  A incapacidade de perceber o momento histórico-político do país faz com que partidos e grupos mirem os seus egoísmos particulares ao invés de olharem para o sofrimento do povo e suas necessidades.


Aldo Fornazieri é Cientista político e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP).

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

A MÃO DO GRANDE IRMÃO DO NORTE

São cada vez maiores as evidências de que o declinante império americano esteve e está puxando as cordas do golpe no Brasil. A propósito, ler o recém lançado livro do historiador Alfred McCoy:  In the Shadows of the American Century: The Rise and Decline of US Global Power, para uma visão mais geral do processo que (também) nos afeta.

A estranha mudança de Janot após voltar de viagem aos EUA

Escrito por , Postado em Redação

Sempre encasquetei com o argumento que Janot usou, diante de um Eugênio Aragão perplexo com os desdobramentos autodestrutivos da Lava Jato.
Para justificar a estratégia de apocalipse e caos adotada pela Procuradoria Geral da República, disposta a destruir as maiores empresas nacionais em nome de um suspeitíssimo e partidário “combate à corrupção”, Janot explicou a Aragão (segundo relato deste) que “a Lava Jato é muito maior que nós”.
O que pode ser maior que a Procuradoria Geral da República, que, no Brasil, é certamente o órgão mais poderoso do país?
O procurador-geral, na terra do sabiá, é um ser virtualmente inatingível. Não há, constitucionalmente, ninguém que possa acusá-lo, investigá-lo, puni-lo.
O que pode, então, inspirar medo num procurador-geral da república?
Depois que Janot passou, há poucas semanas, pelo Wilson Center, think tank da CIA, onde deitou falação sobre processos em curso e detonou a classe política nacional, não tenho mais dúvida de que a frase de Janot para Aragão significava o que já estava à vista de todos, desde que ele, Janot, tinha passado a frequentar reuniões a portas fechadas com autoridades do Departamento de Estado e Departamento de Justiça do governo dos Estados Unidos: que a Lava Jato vinha sendo, cada vez mais, controlada pelo governo americano.
Em seu último artigo, Aragão volta a comentar sobre a mudança de comportamento de Janot: após voltar de uma viagem aos EUA, o procurador-geral desistiu de defender as indústrias brasileiras e aceitou entrar no jogo de destruição da Lava Jato.
“A Lava Jato é muito maior que nós”, disse Janot a Aragão.
Janot é muito pior do que um corrupto.
Um corrupto, a gente prende, pega seu dinheiro e acabou.
Um entreguista, um traidor, se estiver em posição chave na república, causa um prejuízo muito maior do que um corrupto: ele entrega todas as riquezas do nosso país a uma potência estrangeira.
E assim fez Janot.
Depois de fazer o jogo do golpe, Janot correu para os EUA para fazer o jogo do império.
É um traidor e um entreguista.
E essa história das delações dos irmãos Batista, também não me engana.
Os Batista eram a cabeça do maior império de carne do mundo. Um império de capital nacional.
Com a sua queda, e o subsequente desmantelamento da indústria brasileira de carne, a Lava Jato deu sequência a uma série de ataques ao empresariado nacional.
Um coxinha poderia rebater: não! a culpa é da corrupção.
Ninguém vai me convencer, porém, que Halliburton, Koch Industries, Shell, Chevron, Marathon, fundos como Black Rock, ou qualquer indústria norte-americana ou europeia, são um átimo mais honestas ou éticas do que as brasileiras.
Não são. A vantagem delas é que os seus respectivos governos e órgãos estatais são nacionalistas e prezam a soberania de seus países.
Aqui, por conta da intoxicação jogada na atmosfera pela Globo, as nossas instituições mais poderosas, mais bem pagas, mais estruturadas e organizadas, como são o Judiciário e o Ministério Público, cederam facilmente aos interesses imperialistas e jogaram o Brasil no caos.
A Lava Jato produziu um lucro extraordinário para o grande capital internacional, que agora está comprando o Brasil a preço de banana, sem contar a substituição da produção nacional de derivados de petróleo pela importação dos mesmos de refinarias norte-americanas, num processo de antidesenvolvimento só comparável ao assassinato de Delmiro Gouveia.

domingo, 17 de setembro de 2017

COMO É QUE OS COXINHAS DESCOBRIRAM QUE O FILHO DO LULA É DONO DO PRÉDIO DA ESALQ

E que é dono do triplex no Guarujá, um sítio em Atibaia, um terreno que "seria" para o Instituto Lula.

Do DCM


12 milhões de pessoas difundem notícias falsas sobre política no Brasil, diz pesquisa

Postado em 17 de setembro de 2017 às 6:15 am

Do Estadão:
Pesquisadores das diversas áreas ligadas ao assunto, como Ciência da Computação, Ciência Política, Comunicação e Direito, são unânimes em afirmar que as notícias falsas podem ganhar bastante protagonismo na próxima disputa presidencial brasileira, com potencial de alcance maior do que as informações de fontes reconhecidas como confiáveis. “No atual momento, a polarização ideológica coincidiu com o consumo de notícias sobre política por meio das redes sociais. Quanto mais manchetes se prestam a essa informação de combate, maior é a performance delas, o que acaba por corroer o sistema como um todo, poluindo o debate político”, avaliou o cientista político Pablo Ortellado, um dos coordenadores do Gpopai.
O prognóstico é reforçado por exemplos quase que diários na rede. No dia 19 do último mês, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi alvo de uma fake news que dizia que o petista havia sido expulso de um restaurante em Natal. Naquele dia, Lula estava em Pernambuco na caravana pelo Nordeste. A notícia falsa teve quase 15 milhões de compartilhamentos, comentários e outras interações no Twitter.
(…)
Para o professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) Eugênio Bucci, o que impulsiona alguém a compartilhar fake news é a lógica do entretenimento. “A notícia falsa, quando corresponde a um preconceito profundamente enraizado, é fonte de grande prazer. O sujeito vê aquilo e fala ‘eu sabia’.”
Segundo a advogada da área do direito digital, Juliana Abrusio há dois principais perfis desse perpetuador de inverdades nos momentos prévios de decisões políticas: o idealista na faixa entre 20 e 50 anos, que faz de tudo por seu candidato, e o contratado, que faz tudo por dinheiro. “Normalmente, prevalece o contratado”, disse.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

RECAPITULANDO, O SENTIDO A A DESTRUIÇÃO DA NAÇÃO PELO GOLPE

Do Blog do Miro

A "Justiça" usa óculos escuros

Por Fernando Rosa, em seu blog:

A foto de Rodrigo Janot de óculos escuros, num canto de um bar em Brasília, em meio a engradados de cerveja, em íntimo convescote com o advogado de Joesley Batista é a imagem da falência da Procuradoria Geral da República. A decisão do ministro Edson Fachin de mandar prender apenas os empresários da JBS e deixar livre o procurador Marcelo Miller completa o cenário da absoluta decadência do judiciário brasileiro. O Supremo Tribunal Federal (STF), desde sua anuência ao golpe de Estado, tornou-se um jazigo habitado por togados insepultos, enquanto a Procuradoria Geral da República (PGR) virou um balcão de traição aos interesses nacionais e, suspeita-se, de negócios milionários.

Em 10 de junho, Giovanni Vincenzo di San Felice V, Conde de Bagnolo, colaborador do blog Senhor X, afirmou que “a recente delação bombástica do empresário Joesley Batista, da JBF, produziu um abalo de sísmicas proporções no cenário nacional, aprofundando a crise que já não era pequena”. “Novos personagens foram introduzidos no cenário e, no calor dos embates sobre o destino do governo Temer; alguns permanecem como atores menores, outros no anonimato, sem a devida atenção que merecem”, escreveu. Segundo ele, “a maioria dos atores políticos procura desempenhar seus papéis em torno das revelações, enquanto o governo Temer estertora, produzindo um enredo de autêntica ópera bufa”.

A ópera bufa, então, está finalmente revelando o papel da PGR e de seu chefe Rodrigo Janot, assim como do juiz Sérgio Moro, em resumo, da Operação Lava Jato, na deliberada ação contra o Estado brasileiro. Não é de hoje que pesa sobre a Lava Jato a suspeição de ter sido encomendada a partir das escutas telefônicas pelas agências norte-americanas de inteligência, que espionaram autoridades e empresas nacionais. “Desde 2015, juízes do STF, além de Sergio Moro, não saem do Instituto Wilson, conhecido think tank da CIA, e uma das instituições que, através desses seminários, dentre outras atividades, deu importante apoio ao golpe no Brasil”, escreveu Miguel do Rosário, em seu blog O Cafezinho.

Assim como Rodrigo Janot e Sérgio Moro em oportunidades anteriores, confirmando a regra, na semana passada foi a vez do juiz Luís Roberto Barroso cumprir o ritual da cooptação a que o judiciário nacional tem sido alvo desde algum tempo. “Para onde quer que se olhe no Brasil, onde há dinheiro público, há algo de errado. Petrobras, Eletrobras, BNDES, Caixa Econômica, fundos de pensão. Não é algo localizado”, declarou o ministro em palestra no Instituto Wilson, segundo registrou o portal da BBC online. O “surpreso” e cândido ministro do STF, evidentemente, também cumpriu com a “obrigação contratual” de citar a condenação recente do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pelo crime de corrupção.

Em artigo neste final de semana, o jornalista Ricardo Amaral alerta que “não podemos perder o foco da indignação: o mal da Lava Jato não está nos delatores, sejam eles cínicos, oportunistas ou desesperados”. Diz ele que “o mal está em uma exceção aberta no sistema judicial brasileiro, com o patrocínio da Globo e a conivência dos tribunais superiores, que suspende o estado direito para perpetrar a caçada contra Lula e o campo político que ele representa”. “O preço é a revogação da soberania nacional e de tudo o que o povo brasileiro conquistou desde 2003”, conclui ele, apontando para o centro da luta neste próximo período.

Exceto as Forças Armadas, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e as entidades populares e associativas, nem todas, as instituições brasileiras estão falidas, perderam o sentido de sua existência para atender à sociedade e ao país. Qual país no mundo conviveria com uma PGR “independente” e acima do Estado Nacional, um STF acovardado e, ao mesmo tempo inútil, e uma Polícia Federal seletiva e persecutória? É hora, portanto, de aprofundar a denúncia da ação criminosa e antinacional desses setores, impedir o exercício despótico de seu poder e “refundar” uma nova ordem institucional no país.